A maior ginasta do mundo disse não. Quando será a sua vez?

Maior Menor
Mirela Leme

Mirela Leme

Coordenadora editorial

30 julho 2021

Coordenadora editorial

Nesta semana, o mundo viu a ginasta americana Simone Biles desistir de duas finais nas Olimpíadas de Tóquio. O motivo: preservar a saúde mental. Explicamos a importância de dizer não, assim como fez a atleta

Nunca se discutiu tanto a importância do cuidado com a saúde mental, principalmente depois do início da pandemia. Nesta semana, o tema voltou à tona porque a ginasta Simone Biles desistiu de competir nas finais de grupos e individual nas Olimpíadas de Tóquio. Enquanto a maior ginasta do mundo diz não e expõe suas fragilidades, ela também se torna modelo.

Biles já chegou a Tóquio como favorita a 5 medalhas de ouro — as mesmas 4 que conquistou na Rio 2016 e mais uma. Mas, após passar por uma avaliação médica, optou por não participar das provas finais e priorizar a sua saúde psicológica — ela ainda deve participar das disputas nos equipamentos.

Quando a maior ginasta da atualidade desiste de um sonho para priorizar a sua saúde, ela se torna inspiração. 

As Olimpíadas e seus atletas têm o poder de inspirar crianças, e até adultos, a buscar uma nova prática esportiva ou mesmo começar no esporte — e aí temos a Rebeca Andrade a inspirar meninas pretas com o seu Baile de Favela e a medalha de prata inédita para o Brasil na ginástica feminina.

Da mesma forma, o gesto de uma atleta de ponta, a nº 1 do mundo em sua categoria, que coloca a saúde em primeiro lugar, em detrimento de sua carreira, é um grande passo para as discussões sobre a importância de se cuidar da mente.

Simone Biles assumiu sua fragilidade e disse não para as finais. Entendeu até onde ela poderia ir e respeitou a sua saúde.

Como trazer a história de Simone Biles para a realidade? Com o hábito de dizer não para o que incomoda, priorizando a sua vontade, sua saúde e seus limites.

À American Psychological Association (Sociedade Americana de Psicologia), em artigo publicado em 2013 pela escritora Rebecca A. Clay, a psicóloga social e PhD Susan Newman disse que não se surpreende que as pessoas digam sim quando provavelmente não deveriam.

Newman escreveu o The Book of No: 250 Ways to Say It — And Mean It and Stop People-pleasing (em tradução livre, algo como O Livro do Não: 250 formas de dizer e querer dizer isso e parar de agradar às pessoas).

O livro não está disponível em português e a versão em inglês custa R$ 2.180. 

Aqui, no Brasil, é possível adquirir o Livro do Não, do escritor e cartunista Ziraldo — que você encontra por até R$ 25 nas principais livrarias virtuais. Está aí algo a se compartilhar com crianças desde cedo: o poder do não, mais o cuidado com a saúde mental.

Entre os especialistas da Jolivi, a nutricionista e professora Lara Gabriela Cerqueira diz que “não é uma palavra estratégica. Adoro tratar dela com meus pacientes e alunos”.

“Uma palavra que remete sempre à negativa não nos parece ser uma alternativa, por isso nosso conceito sobre o não costuma ser cruel. Aliás, frequentemente ouvimos os discursos de automotivação que incentivam o distanciamento dessa palavra das nossas decisões, não é mesmo? Existe uma linha tênue entre o ‘ser sua melhor versão’ e o ‘fazer tudo sobre qualquer custo’”, continua a nutricionista.

O que a Lara diz, porém, é que dizer não pode ser também uma palavra extremamente estratégica e libertadora. 

“O não pode ser sinônimo de sim quando ele nega em benefício da vida bem vivida. Quando você diz sim para tudo, o tempo todo, negligência os limites do seu corpo e a autonomia. E não existe sensação melhor do que você negar aquilo que não te traz saúde”, aconselha.

Ela fez uma lista para que o não seja mais adotado na sua rotina:

  • Não é só dizer não naquele dia em que a cabeça pesa no final do dia;
  • É dizer não para aquele trabalho que te traz refluxo
  • Dizer não para aquela relação que esgota as energias;
  • Dizer não para aquele hábito que você só tem porque todo mundo diz ser o certo;
  • Dizer não para status que o ego busca, mas que o corpo não sustenta.

“Sempre vão existir barreiras para decidir pelo não, especialmente a sensação de derrota e as limitações que só você sabe. Mas se você lembrar que a vida é agora e que nossas escolhas sustentam nossa história, já trará parte desse fôlego para escrever capítulos mais felizes”, pontua a professora.

Um chá para você abrir a boca e dizer um belo não pela sua saúde

Como a Lara Gabriela é especializada em plantas medicinais, a Jolivi perguntou a ela se existe uma planta para dar um “empurrão” nesse hábito de negar o que não faz bem.

“É difícil a natureza disponibilizar uma ferramenta que tome a decisão por você, mas ela dispõe de alternativas que podem te ajudar a reduzir a pressão e a antecipação do que ainda vai acontecer e consequente controle da ansiedade. As plantas medicinais são medalhistas em sustentar nossa saúde. Não é à toa que o capim-santo (Cymbopogon citratus) leva esse nome popular, ele já deve ter facilitado a vida de muitas pessoas ao trazer a tranquilidade necessária para encarar suas decisões”.

Brasileiros estão na berlinda

De acordo com estudo da Universidade de São Paulo, a USP, o Brasil lidera o ranking (não de medalhas nas olimpíadas, infelizmente) em casos de ansiedade e depressão durante a pandemia.

O levantamento analisou os dados de 11 países e estima que 63% dos brasileiros sofrem com a ansiedade e 59% são deprimidos. Nosso país aparece à frente de nações como Irlanda e Estados Unidos.

Uma nova atividade para Simone Biles nos próximos dias

A ginasta precisará manter o cuidado com sua saúde mesmo após as Olimpíadas. Ela, assim como quem sofre de ansiedade, pode se beneficiar com uma técnica milenar para movimentar o corpo — e favorecer a mente.

Uma das formas de enfrentar crises de ansiedade é a ioga. A atividade milenar não faz parte da lista de esportes olímpicos, é claro, mas pode levar ao pódio um neurotransmissor — um mensageiro químico — chamado GABA (ácido Gama-Aminobutírico), responsável por uma atuação calmante no organismo.

Um estudo de 12 semanas conduzido pelas universidades americanas de Harvard e Boston (e outras) comparou os efeitos da prática de ioga à caminhada. Os resultados apontaram aumento de GABA superior naqueles que praticaram ioga, assim como a melhora do humor e redução dos níveis de ansiedade durante o período de acompanhamento.

Colaboraram: Giovanna Tavares e Bruna Buzzo

Referências:

  • Streeter CC, Whitfield TH, Owen L, et al. Effects of yoga versus walking on mood, anxiety, and brain GABA levels: a randomized controlled MRS study. J Altern Complement Med. 2010;16(11):1145-1152. doi:10.1089/acm.2010.0007
  • https://www.apa.org/gradpsych/2013/11/say-no

 

 

Mirela Leme

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Coordenadora editorial

30 julho 2021

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