Precisamos parar de ouvir áudios acelerados

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Pedro Bezerra Souza

Pedro Bezerra Souza

9 junho 2021

Editor

Semana passada eu enviei uma mensagem para minha mãe, no Whatsapp, pedindo ajuda para fazer uma sopa. Isso aconteceu dias depois do aplicativo ter lançado a atualização que dá a possibilidade de ouvir áudios acelerados.

Minha mãe respondeu com uma mensagem de voz e eu achei ótimo porque poderia ouvir enquanto fazia o que ela orientava ao mesmo tempo. Meu celular, que faz atualizações automáticas – e eu nem sei o porquê disso, mas deve ser mais uma dessas urgências que a tecnologia nos impõe – já estava me dando a chance de ouvir áudios mais rápidos.

Então, ela mandou uma explicação sucinta de apenas 33 segundos:

 

 

Quando eu percebi que já poderia ouvir aquela mensagem 1,5x ou até 2x mais veloz, não tive dúvidas. Dei play nos ensinamentos culinários dela dessa maneira:

 


A orientação acabou em 16 segundos e eu não entendi coisa alguma. Tive que voltar ao áudio, dessa segunda vez com a aceleração normal. Nesse momento, novamente, eu confirmei para mim mesmo o quanto estamos vivendo em uma sociedade ansiosa e que não enxerga como que esses hábitos são nocivos para nossa saúde física e mental.

Já escrevemos aqui na Jolivi sobre o aumento nos casos de ansiedade no Brasil nos últimos anos. São exemplos diários que nos comprovam como estamos inseridos na sociedade do cansaço.

Sociedade do Cansaço, por sinal, é a máxima trazida pelo filósofo coreano Byung-Chul Han no seu livro homônimo à teoria. Nas páginas, ele explica como em uma época movida à velocidade, estamos vivendo uma “tenebrosa valorização de indivíduos inquietos e hiperativos que se arrastam no cotidiano produtivo realizando múltiplas tarefas”.

A novidade do Whatsapp muito tem a ver com o princípio da sociedade do cansaço. Tudo está sob uma pressa que, na teoria, sabemos que é desnecessária. Mas, na prática, esquecemos a teoria. 

Na Jolivi, já pude aprender com os médicos integrativos que o nível de estresse está diretamente relacionado ao sistema imunológico. Por isso, acabamos adoecendo sem saber muito bem o porquê.

 

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O neurocientista Nelson Annunciato é um dos nossos especialistas na Jolivi e ele costuma falar muito sobre os problemas da ansiedade e depressão. Inclusive, ele comanda o Conexão Cérebro aqui na Jolivi – e já falou sobre o órgão secreto que controla todas as nossas emoções.

Conversei com o Dr. Nelson para escrever esse texto e ele explicou que essa sobrecarga de informação pode trazer problemas a médio prazo.

“Os problemas não vão surgir do dia pra noite. Mas, na realidade, começamos a acelerar e querer forçar o trabalho nessa circuitaria nervosa. Então, acabamos levando uma exaustão da sobrecarga de conexões que estão se formando. Eu não aconselho essa aceleração, eu recomendaria manter a fisiologia do nosso corpo”, conta.

Essa lógica faz parecer que vivemos em um sistema de fuga, como se tivesse algo ou alguém atrás da gente. Isso é contra a natureza humana, inclusive contra o nosso organismo. Essa explicação, vinda da medicina natural, mostra como a exposição a esse estresse crônico cria um déficit no sistema imune por um tempo prolongado.

“Sempre que começamos a sobrecarregar o corpo (atividade física ou formas de estresse), começamos a liberar o hormônio do estresse, que é o cortisol. sempre que tem o aumento do cortisol, tem um bloqueio da formação da serotonina – e o cortisol também começa a enfraquecer o nosso sistema imune. Qualquer tipo de estresse (inclusive auditivo) faz aumentar o cortisol”, complementa o Dr. Nelson.

Então, o receio da medicina integrativa é que com todos esses processamentos acelerados, o indivíduo acaba tendo uma deficiência de serotonina, o que facilitaria o aparecimento da depressão. “Essa deficiência pode ser só da serotonina, da noradrenalina ou até dos dois, principalmente se não tiver hábitos alimentares adequados. Como eu sempre gosto de falar: nós estamos somando dados”, finaliza o neurocientista.

Definitivamente, precisamos parar de ouvir áudios acelerados.

Pedro Bezerra Souza

Pedro Bezerra Souza

9 junho 2021

Editor

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