Precisamos parar de ouvir áudios acelerados

Maior Menor

Semana passada eu enviei uma mensagem para minha mãe, no Whatsapp, pedindo ajuda para fazer uma sopa. Isso aconteceu dias depois do aplicativo ter lançado a atualização que dá a possibilidade de ouvir áudios acelerados.

Minha mãe respondeu com uma mensagem de voz e eu achei ótimo porque poderia ouvir enquanto fazia o que ela orientava ao mesmo tempo. Meu celular, que faz atualizações automáticas – e eu nem sei o porquê disso, mas deve ser mais uma dessas urgências que a tecnologia nos impõe – já estava me dando a chance de ouvir áudios mais rápidos.

Então, ela mandou uma explicação sucinta de apenas 33 segundos:

 

 

Quando eu percebi que já poderia ouvir aquela mensagem 1,5x ou até 2x mais veloz, não tive dúvidas. Dei play nos ensinamentos culinários dela dessa maneira:

 


A orientação acabou em 16 segundos e eu não entendi coisa alguma. Tive que voltar ao áudio, dessa segunda vez com a aceleração normal. Nesse momento, novamente, eu confirmei para mim mesmo o quanto estamos vivendo em uma sociedade ansiosa e que não enxerga como que esses hábitos são nocivos para nossa saúde física e mental.

Já escrevemos aqui na Jolivi sobre o aumento nos casos de ansiedade no Brasil nos últimos anos. São exemplos diários que nos comprovam como estamos inseridos na sociedade do cansaço.

Sociedade do Cansaço, por sinal, é a máxima trazida pelo filósofo coreano Byung-Chul Han no seu livro homônimo à teoria. Nas páginas, ele explica como em uma época movida à velocidade, estamos vivendo uma “tenebrosa valorização de indivíduos inquietos e hiperativos que se arrastam no cotidiano produtivo realizando múltiplas tarefas”.

A novidade do Whatsapp muito tem a ver com o princípio da sociedade do cansaço. Tudo está sob uma pressa que, na teoria, sabemos que é desnecessária. Mas, na prática, esquecemos a teoria. 

Na Jolivi, já pude aprender com os médicos integrativos que o nível de estresse está diretamente relacionado ao sistema imunológico. Por isso, acabamos adoecendo sem saber muito bem o porquê.

 

Aprenda técnicas de medicação e apague o estresse e a ansiedade em 5 minutos

 

O neurocientista Nelson Annunciato é um dos nossos especialistas na Jolivi e ele costuma falar muito sobre os problemas da ansiedade e depressão. Inclusive, ele comanda o Conexão Cérebro aqui na Jolivi – e já falou sobre o órgão secreto que controla todas as nossas emoções.

Conversei com o Dr. Nelson para escrever esse texto e ele explicou que essa sobrecarga de informação pode trazer problemas a médio prazo.

“Os problemas não vão surgir do dia pra noite. Mas, na realidade, começamos a acelerar e querer forçar o trabalho nessa circuitaria nervosa. Então, acabamos levando uma exaustão da sobrecarga de conexões que estão se formando. Eu não aconselho essa aceleração, eu recomendaria manter a fisiologia do nosso corpo”, conta.

Essa lógica faz parecer que vivemos em um sistema de fuga, como se tivesse algo ou alguém atrás da gente. Isso é contra a natureza humana, inclusive contra o nosso organismo. Essa explicação, vinda da medicina natural, mostra como a exposição a esse estresse crônico cria um déficit no sistema imune por um tempo prolongado.

“Sempre que começamos a sobrecarregar o corpo (atividade física ou formas de estresse), começamos a liberar o hormônio do estresse, que é o cortisol. sempre que tem o aumento do cortisol, tem um bloqueio da formação da serotonina – e o cortisol também começa a enfraquecer o nosso sistema imune. Qualquer tipo de estresse (inclusive auditivo) faz aumentar o cortisol”, complementa o Dr. Nelson.

Então, o receio da medicina integrativa é que com todos esses processamentos acelerados, o indivíduo acaba tendo uma deficiência de serotonina, o que facilitaria o aparecimento da depressão. “Essa deficiência pode ser só da serotonina, da noradrenalina ou até dos dois, principalmente se não tiver hábitos alimentares adequados. Como eu sempre gosto de falar: nós estamos somando dados”, finaliza o neurocientista.

Definitivamente, precisamos parar de ouvir áudios acelerados.

Conteúdos Relacionados