Saia do alvo de um padrão de beleza doente

Maior Menor

Eu estava quase sugerindo que os homens saíssem da “sala” para que essa conversa fosse direta e reta com as mulheres. Seria um erro crasso. Não apenas porque a população masculina também pode adoecer do mal que vamos abordar aqui, mas principalmente porque os nossos pais, tios, irmãos, amigos, maridos, namorados, conhecidos e desconhecidos contribuem – de forma direta ou indireta – para que as crianças, as jovens e as senhoras permaneçam no alvo de um padrão de beleza doente.

Dr. Leonardo Aguiar, cirurgião plástico e um profundo investigador deste problema estético, diz que algumas pessoas que buscam desesperadamente fazer parte da “turma dos belos” pode ter graves problemas emocionais.

Essa busca pode ser o gatilho de severas depressões e de quadros de ansiedade o que, por si só, já seriam sintomas extremamente graves. Mas os malefícios vão além. Dr. Leo conta que os efeitos desta beleza imposta e excludente são tão importantes que podem “enlouquecer” os indicadores de saúde, fazendo com que, de uma forma invisível, fique doente até mesmo quem apresenta índices considerados saudáveis pela medicina.

Para provar esta situação, nós dois elaboramos um teste e o aplicamos a 100 mulheres, inspirados por um movimento chamado Body Image Movement. Os resultados evidenciam que passou da hora de apresentarmos uma alternativa de caminho mais saudável e de mais bem-estar para a população – majoritariamente feminina – que todo dia é convencida a enxergar insatisfação no reflexo do espelho e ficar doente por isso.

O padrão de beleza pode te deixar doente

Nojo e harmonia

Vamos ao teste. Por meio das minhas redes sociais, convidei as mulheres, apenas as mulheres, a participarem do experimento. Elas deveriam falar, de maneira sigilosa, qual a primeira palavra que aparece na cabeça quando pensam em seus corpos. Reunimos para análise as 100 primeiras menções que chegaram em minhas caixas de mensagem.

Nada mais nada menos do que 69% das participantes não informaram nomes elogiosos para fazerem referência a si próprias. Ao contrário. Sobrou crueldade. “Gorda” foi o mais recorrente. “Horror”, “Medo” e “Tormento” são outros exemplos citados por esta maioria. Como conhecia grande parte das participantes, sabia que muitas das que disseram “gordura”, “banha” e “pelanca” nem eram obesas (só para evidenciar que esta cultura da insatisfação não é fomentada apenas pela epidemia de obesidade como querem nos convencer).

Porém, 2 exemplos por nós pincelados deixaram esta distorção ainda mais evidente. Uma das participantes definiu seu corpo com a palavra “nojo”. Entrei em contato e, fazendo os cálculos com o seu peso e altura, e eu e o Dr. Leonardo identificamos que ela tem Índice de Massa Corpórea (IMC) 21, considerado adequado pela literatura especializada. Já a mulher que usou a palavra “Harmonia” ostenta IMC 26, classificado como sobrepeso e, na escala que rege os consultórios clínicos, já acende o alerta amarelo.

“Se olhássemos os indicadores de forma isolada poderíamos aferir, erroneamente, que a portadora do IMC 21 está em melhor relação com a sua saúde do que a que tem IMC 26”, explica Dr. Leonardo. “Mas não é isso que o nosso teste denota e não é isso que atesto diariamente. Ao dizer “nojo”, fica claro que esta jovem pode até estar fora do IMC de risco. Mas ela não está saudável. Não tem indicador de doença, mas também não tem indicador de saúde”, alerta o especialista.

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Consumir, comprar e ter

E qual é a relação do padrão de beleza com isso tudo? Óbvio que a percepção corporal, a ansiedade, a depressão e a angústia são mosaicos formados por uma série de fatores. Mas Dr. Leonardo me disse que, sim, o padrão de beleza está bem associado aos danos provocados por esta auto percepção distorcida. Ele, então, fez a seguinte reflexão.

“Quem dita este padrão de beleza são as regras de consumo. E os melhores consumidores são aqueles que estão insatisfeitos. Nestes casos é mais fácil convencer que comprando um produto, fazendo uma plástica, adquirindo uma roupa, um creme ou uma pílula emagrecedora, será mais fácil ficar satisfeito e, portanto, belo. A beleza é a busca pela paz e pela satisfação. Não é interessante para o ‘mercado’ que alcancemos plenamente estes dois conceitos. Todo dia, uma nova necessidade é inventada e disseminada”.

E a conta disso tudo, pagamos como?

Veja também: Comece hoje a vencer a depressão com a solução M3PA

O padrão de beleza pode te deixar doente

A fatura

Pagamos com índices crescentes de transtornos alimentares que fazem vítimas de todas as idades e “não passam com o tempo”, como acreditava-se no passado. No Congresso Nacional de Organização de Idosos, realizado há alguns anos, pesquisadores espanhóis evidenciaram que o número de senhoras com 60 anos ou mais que sofrem de anorexia e bulimia – duas doenças graves associadas ao medo de engordar – havia triplicado, passando de 1,5% do total de atendimentos para 5%.

Nas visitas que já fiz no Ambulatório de Anorexia, Bulimia e outros Transtornos Alimentares (Ambulim), do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), cansei de ver meninas e mulheres, com medo intenso de comida e que odiavam o próprio corpo em um conflito tão intenso que não viam saída (dentre todos os transtornos, estes são os que concentram o maior número de suicídios).

Não é preciso, no entanto, desenvolver algum transtorno alimentar para adoecer por causa do padrão de beleza. A autoimagem odiosa é um veneno que se toma diariamente. Ela infesta o corpo de substâncias nocivas e comprometendo o funcionamento pleno dos órgãos.

Um estudo maravilhoso publicado no jornal The Lancet, um dos principais do mundo, avaliou 36 pesquisas envolvendo mais de 700 mil pessoas e constatou que os “sentimentos ruins” estão entre as 10 causas diretas de infarto no mundo.

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O seu padrão de beleza

Como sair dessa enrascada? Dr. Leonardo diz que primeiro é preciso bater um papo bem honesto com a insatisfação para entender se ela é verdadeira ou imposta pelo padrão vigente. O estilo de vida saudável, por vezes deturpado pela indústria da estética, também auxilia a ampliar a conscientização corporal, o bem-estar e a satisfação.

O que quero dizer é que uma caminhada, uma pescaria, dançar com as amigas, correr no parque, pedalar e brincar são exemplos de atividades físicas que equalizam a quantidade de cortisol no corpo – o hormônio do estresse – e contribuem para uma autoimagem melhor.

Produtos industrializados, o sal e o açúcar alteram a produção de serotonina, a substância da felicidade. Invista em comida de verdade. Aquela in natura, disponível nas feiras e nas fazendas. Certifique-se que, em seu corpo, as dosagens de nutrientes estão corretas. Desconfie das pessoas que não confiam na boa alimentação como a chave de tudo.

Um bom almoço em família, um chocolate amargo e o colorido das frutas e dos legumes são operadores de verdadeiros milagres na satisfação. E, principalmente. Olhe no espelho com ternura. O seu corpo é seu. O padrão de beleza não.

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