Muito além do dicionário: essas  palavras estão ligadas à depressão

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Pedro Bezerra Souza

Pedro Bezerra Souza

22 julho 2021

Editor

Uma pesquisa revelou que oito simples palavras cotidianas estão constantemente na linguagem de pessoas com quadros depressivos; saiba a  relação e a importância de conhecer os sinais comportamentais

Solitário, triste, miserável. 

Sempre, nunca, completamente.

Eu, meu.

Essas palavras podem não dizer nada a você, mas dizem bastante sobre muita gente. Elas até parecem ser meros adjetivos, pronomes ou substantivos. Mas essa conversa vai muito além de uma mera classificação gramatical.

A revista científica Clinical Psychological Science publicou um estudo e mostrou que pessoas que sofrem com diferentes quadros de depressão tendem a usar essas palavras com mais frequência.

Os pesquisadores chegaram a essa conclusão após fazerem análises de fóruns online de saúde mental, além de avaliarem relatos em diários de pacientes diagnosticados com depressão. O estudo constatou que esse grupo de pessoas têm padrões de linguagem semelhantes.

E aquelas oito palavras lá de cima apareceram em uma quantidade considerada excessiva.

O que explica a relação entre  depressão e essas palavras?

O neurocientista e especialista da Jolivi, Dr. Nelson Annunciato, que está à frente do programa Liberte sua Mente, explicou mais sobre a relação entre palavras e sinais de uma mente adoecida.

“A relação existe porque a pessoa que está com depressão, tende a falar ou pensar constantemente coisas como ‘eu preciso sobreviver’ e, dessa maneira, ela já utiliza o primeiro pronome do singular. Isso, muitas vezes, está abaixo do nível de consciência. Dentro da depressão, o uso do singular é constante: minha vida, minha dor, minha depressão”, explica.

De uma forma simples, a explicação é que a depressão se caracteriza pelo excesso do passado, assim como a ansiedade é o excesso do futuro. “Então, essa pessoa dentro do passado dela, está focada naquilo que ela fez como sendo a personagem principal das histórias. E, no caso da depressão,  isso se aflora”, detalha o neurocientista.

O estudo da Clinical Psychological Science corrobora com a explicação do Dr Nelson. Os pesquisadores pontuaram que pronomes plurais como “eles” e “nós” são menos utilizados por esse grupo estudado. O texto afirma que esse fato sugere que essas pessoas se sentem isoladas dos outros e focam a atenção somente nelas mesmas.

A metáfora do iceberg

Para melhor explicar essa relação, o Dr. Nelson usou a metáfora do iceberg. “Tudo que está acima da água é a nossa consciência, é o que podemos descrever em palavras. Porém, a maior parte do iceberg está submersa e é nela que está o nosso inconsciente”, inicia.

“Quando falamos dos nossos sentimentos e emoções, estamos falando do sistema límbico. Esse sistema está predominantemente (de 80 a 85%) na parte submersa do iceberg. Ou seja, quando relatamos algum acontecimento que envolvam emoções, nem sempre temos consciência do que realmente está acontecendo”, conta o Dr. Nelson.

Sempre e Nunca

As escolhas — por vezes inconsciente, como falamos — das palavras “sempre” e “nunca” estão associadas ao individualismo da pessoa deprimida.

“Sempre deu tudo errado na minha vida” / “nunca mais vai dar certo” 

Esses tipos de afirmação são uma constante, de acordo com o Dr. Nelson, e muito têm a ver com o explicado pela pesquisa.

“Existe uma tendência genética para que os indivíduos desenvolvam depressão, mas isso vai depender do meio ambiente no qual esse indivíduo foi educado, onde ele cresceu, além do entorno do momento. Ou seja, a tendência genética não é absoluta nem pro sim, nem pro não”, comenta.

É nesse comportamento que as duas palavras em questão tendem a surgir — e elas podem estar associadas ao otimismo ou ao pessimismo.

“O otimista tem uma chance maior de se desenvolver muito bem, de aproveitar uma neurorreabilitação. Já o pessimista, que acaba modificando neurotransmissores e hormônios, prejudica o seu processo de neurorreabilitação”, afirma o neurocientista.

Alimentação contra a depressão

Muito longe dos remédios controlados, há uma saída para prevenir e até reverter quadros de depressão. De acordo com o Dr. Nelson, essas três dicas são importantíssimas à saúde da mente:

O primeiro é uma gordura essencial que cuida da saúde como um todo. No cérebro, o ômega 3 faz uma grande diferença, principalmente com dois de seus principais ácidos graxos, chamados de ácido eicosapentaenoico (EPA) e ácido docosahexaenoico (DHA).

Já a Erva de São João é conhecida por aumentar a disponibilidade de neurotransmissores, como é o caso da serotonina. E tem efeitos antidepressivos e poderes anti-inflamatórios e analgésicos.

Por fim, casos de depressão estão ligados à insuficiência dos nutrientes da vitamina B12 (metilcobalamina) e do ácido fólico (B9 ou metilfolato). Elas são importantes porque induzem o metabolismo a transformar o triptofano em serotonina. 

São ricos em B12, principalmente, os alimentos de origem animal, como gema de ovos, fígado, carne de porco, os peixes de águas frias e profundas, leite e derivados. Alimentos ricos em B9 são os vegetais verde-escuros, levedura de cerveja e fígado de boi.

O papel da alimentação mediterrânea

Uma análise desenvolvida pela Universidade de Navarra, na Espanha, comprovou que uma dieta alimentar mediterrânea garante a ingestão adequada da vitamina B e dos ácidos graxos provenientes do ômega 3.

De acordo com os pesquisadores, a dieta em questão tem um papel protetor na prevenção de casos depressivos. Para chegar a essa conclusão, a pesquisa contou com a participação de 9.670 participantes (4211 homens e 5459 mulheres) e fez análises de regressão nos casos depressivos para fazer a associação entre esses alimentos e a prevalência – ou não – da depressão.

O resultado percebido foi que a ingestão de folato foi inversamente associada à prevalência de depressão entre homens, especialmente fumantes. Entre as mulheres, a ingestão de vitamina B12 foi inversamente associada com depressão, especialmente entre fumantes e mulheres fisicamente ativas. 

Ou seja, a pesquisa mostrou que a adesão a um padrão alimentar mediterrâneo melhora, sim, casos depressivos. Qual o cardápio? Simples: frutas, nozes, vegetais, cereais, legumes e peixes.

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Referência

 

  • Clinical Psychological Science, Elevated Use of Absolutist Words Is a Marker Specific to Anxiety, Depression, and Suicidal Ideation. Mohammed Al-Mosaiwi and Tom Johnstone. 01/05/2018.
  • Universidade de Navarra, Mediterranean diet and depression. A Sa´nchez-Villegas, P Henríquez, M Bes-Rastrollo2 and J Doreste. 11/20/2006

 

 

Pedro Bezerra Souza

Pedro Bezerra Souza

22 julho 2021

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