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Autismo e qualidade de vida: o papel da suplementação e alimentação natural

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Pedro Bezerra Souza

Pedro Bezerra Souza

1 abril 2021

Editor

Estudos apontam a suplementação como forte aliada para melhorar a vida de quem está no espectro autista, caso de cerca de 2 milhões de brasileiros

O Transtorno do Espectro Autista (TEA), ou mais popularmente chamado de autismo, é um transtorno do neurodesenvolvimento, que vem sendo diagnosticado com maior frequência nos últimos anos. Segundo dados do Center of Diseases Control and Prevention (CDC), órgão ligado ao governo dos Estados Unidos, existe hoje um caso de autismo a cada 110 pessoas.

Desta forma, estima-se que o Brasil, com seus 200 milhões de habitantes, possua cerca de 2 milhões de autistas. Ou seja, o autismo tem sido cada vez mais comum, mas o que pouca gente sabe é que há possibilidades reais de melhorar a qualidade de vida de pessoas no espectro autista por meio de alimentação e suplementação nutricional.

Por exemplo, você sabia que a vitamina D3, o ômega 3 e probióticos — como o kefir — são poderosos nutrientes para as pessoas dentro do espectro? Pois é, eles têm atuações específicas no organismo e podem ser um bom apoio no acompanhamento de saúde.

Criado pela Organização das Nações Unidas em 18 de dezembro de 2007, o Dia Mundial do Autismo busca conscientizar a população sobre o espectro. Celebrada no dia 2 de abril, a iniciativa é que informações cheguem até as famílias para elevar potencialmente a qualidade de vida das pessoas no espectro autista.

Mas o que, de fato, é o autismo?

 

Denominada em 1943 por um austríaco, a palavra autista significa “dentro de si mesmo”, o autismo é caracterizado por problemas na comunicação, na socialização e no comportamento.

Ela geralmente é diagnosticada entre os 2 e 3 anos de idade, mas tem sido cada vez mais comum o diagnóstico em pessoas mais velhas.

Dificuldade na fala e na expressão de ideias e sentimentos, mal-estar em meio a outras pessoas e pouco contato visual são algumas das características do espectro autista. Além disso, o hábito de ficar sentado balançando o corpo para frente e para trás é outro sinal que a criança pode ser autista.

Porém, é importantíssimo que se saiba: o autismo não é uma doença. Ele significa que o cérebro do indivíduo autista funciona de um jeito diferente quando comparado a outras pessoas. É algo que a criança nasce ou desenvolve ao longo dos primeiros anos de vida. Como não se trata de uma doença, não há evidências científicas que tornem possível falar em cura.

Tratamento individual para cada tipo de autismo

Diferentemente do que se pensa, o espectro autista não é uma condição psicológica, mas, sim, uma condição com consequências neurológicas. Então, o autismo se trata de um espectro — mas o que é isso? Quem explica é o Dr. Nelson Annunciato, especialista da JOLIVI.

“Imagine um guarda-chuva. Debaixo dele, estão cobertas algumas condições, dentre elas, o autismo e a Síndrome de Asperger. Antes, eram tratadas como coisas distintas. Agora, todas as síndromes debaixo do guarda-chuva do autismo são chamadas de Transtorno do Espectro Autista”, pontua.

Ou seja, o autismo não é todo igual. Há diferenças de graus e características e, por isso, é preciso tratar de forma individualizada cada pessoa dentro do espectro. Alguns, se desenvolvem sem tantas necessidades de intervenções de apoio. Já outros, precisam de um suporte maior de familiares e profissionais especializados.

“Respeitar a individualidade de cada um que recebe a confirmação do autismo é fundamental”, reforça o Dr. Annunciato. Sendo assim, conhecer as variantes dos sinais e sintomas é um começo importante para que os tratamentos para melhoria da qualidade de vida — e não cura — sejam eficazes.

Sinais e sintomas do autismo

Para um diagnóstico precoce e um tratamento mais eficaz, é preciso estar atento aos sinais e sintomas que o autismo pode apresentar na criança. Alguns deles são mais evidentes, já outros aparecem de maneira mais discreta. Por isso, é preciso que pais e/ou responsáveis procurem um especialista caso a criança tenha alguns desses comportamentos:

  • Bebês que evitam o contato visual com a mãe, inclusive durante a amamentação;
  • Choro ininterrupto;
  • Apatia;
  • Inquietação exacerbada;
  • Pouca vontade para falar;
  • Surdez aparente: a criança não atende aos chamados;
  • Transtorno de linguagem, com repetição de palavras que ouve;
  • Movimentos pendulares e repetitivos de tronco, mãos e cabeça;
  • Ansiedade;
  • Agressividade; e
  • Resistência a mudanças na rotina: recusa provar alimentos ou aceitar um novo brinquedo, por exemplo.

Ocitocina: o hormônio do amor

A ocitocina, mais conhecida como hormônio do amor, costuma aparecer quando o ser humano está perto de alguém querido, por exemplo, e está ligada à sensação de prazer e de bem-estar físico e emocional. Pesquisas apontam que os indivíduos mais sociais têm maior quantidade da substância. Por isso, a ocitocina também é chamada de “hormônio da sociabilidade”.

De acordo com o Dr. Nelson Annunciato, apesar do autismo se tratar de um outro tipo de contato visual e, consequentemente, interpretação dos sinais sociais, “não  é correto afirmar que pessoas com autismo são incapazes de demonstrar amor e carinho”.

Mas, então, onde é que a ocitocina entra nessa relação? A ciência tem descoberto que ela pode ser uma forte aliada para melhorar as interações sociais das pessoas dentro do espectro.

O que os estudos dizem

De acordo com um estudo realizado por pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Stanford, o tratamento com ocitocina produz melhora no comportamento social de crianças com autismo que têm níveis baixos do hormônio.

O estudo, que foi publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences, é o primeiro a considerar como os níveis de oxitocina da linha de base influenciam as respostas de crianças autistas à substância.

A pesquisa incluiu 32 crianças com autismo, que foram aleatoriamente designadas para receber um spray de ocitocina intranasal ou um spray de placebo duas vezes ao dia, durante quatro semanas.

Os níveis de oxitocina no sangue das crianças foram medidos antes e depois do período total do estudo. O comportamento das crianças também foi avaliado no início e no final do ensaio por meio de um questionário padronizado preenchido por seus pais. O uso de ocitocina nasal foi considerado seguro, sem eventos adversos relatados.

Além disso, uma das formas naturais de alavancar a presença desse hormônio no organismo é o contato físico, como abraço, massagem, cafuné e carinhos. “Porém, isso pode não ser a melhor forma de interação para uma pessoa com autismo, que, às vezes, apresenta sensibilidade extrema e se incomoda com o contato físico. Por isso, cada um deve ser avaliado em sua individualidade”, explica o Dr. Nelson.

Entretanto, há outras atividades que podem ser terapêuticas e ajudar na liberação de ocitocina sem envolver, obrigatoriamente, o toque. São elas:

  • Praticar yoga, que pode ajudar também na redução de estresse e ansiedade;
  • Ouvir música, que aumenta a nossa capacidade de firmar laços sociais;
  • Conversar com alguém querido, que também reforça a afetividade;
  • Meditação da consciência amorosa, que ajuda a aumentar a compaixão;
  • Cozinhar e fazer refeições em companhia de amigos e familiares;
  • Praticar atividades e gestos de gentileza e altruísmo;
  • Cuidar de um animal de estimação.

Suplementação em prol do autismo?

Um estudo do ano de 2019 do Beth Israel Deaconess Medical Center (BIDMC) evidenciou a presença de leucócitos, que são células do sistema imune, em maior quantidade no cérebro de indivíduos diagnosticados com autismo.

Ainda há bastantes pontos inconclusivos, mas os pesquisadores reconhecem que outros estudos a serem feitos podem atestar essa relação de causa e efeito entre células imunológicas e autismo. Então, o que se sabe é que o autismo é autoimune, ou seja, desencadeado pelo próprio organismo.

Mas, então, há suplementações que possam ajudar no desenvolvimento de autistas? A resposta é positiva e três exemplos são: a vitamina D3, o ômega 3 e probióticos. A melhor maneira de fazer bom uso dessa suplementação é consultando o seu médico responsável. Aqui, vamos falar um pouco de cada uma delas.

Vitamina D3

A vitamina D3 é a vitamina do sol e, comumente, a população vive uma deficiência dela por estar cada vez menos exposta à luz solar. Entretanto, ela é importantíssima em casos de autismo porque ela desempenha um papel imunomodulador no organismo — como um hormônio.

Isso faz com que ela ajude a coordenar o sistema imunológico, possibilitando que ele funcione apenas quando necessário — e não cronicamente. Além disso, a vitamina D3 tem ação anti-inflamatória no cérebro. Um ensaio de 2016, com 109 crianças no espectro com idades entre 3 e 10 anos, evidenciou esse potencial terapêutico da vitamina D. A dose de vitamina D3 foi de até 5.000 UI/dia, dependendo do peso de cada criança avaliada

Após quatro  meses de suplementação, os níveis de vitamina D3 no grupo de tratamento aumentaram significativamente, mas não no grupo de placebo. “Quanto às melhorias comportamentais, as pontuações avaliadas em testes comportamentais específicos para autismo foram significativamente melhores em crianças suplementadas com vitamina D”, explica o Dr. Nelson Annunciato sobre o estudo.

Para obter vitamina D3, sol

A forma mais natural (e barata) de se consumir de aumentar os níveis de vitamina D3 é por meio da exposição ao sol, por 15 minutos, no horário entre as 10 e 15h (com sol a pino), todos os dias da semana. Com a exposição ao sol, é possível garantir a produção de 20.000 UI/dia de D3, valores superiores à suplementação.

Se a exposição ao sol diariamente não ocorrer, é importante falar com o médico sobre a melhor dosagem. O Dr. Nelson Annunciato diz que a suplementação de D3 em conjunto com a vitamina K2 é ideal, para evitar a formação de pedras nos rins.

Além da exposição solar, é possível obter vitamina D3 —- bem menos que por meio do sol —através de alimentos como:

  • Gema de ovo: 20 UI / gema;
  • Leite: 100 UI / 200ml;
  • Salmão selvagem: 600 UI / 100g;
  • Cogumelos desidratados no Sol: 1600 UI / 100g;
  • Ômega 3.

Os ácidos graxos ômega 3 — mais precisamente o ácido eicosapentaenóico (EPA) e o ácido docosahexaenóico (DHA) — só podem ser obtidos de fontes externas, por meio de alimentação ou suplementação. Eles atuam diretamente como um bom suplemento no desenvolvimento de crianças no espectro autista.

No cérebro, o ômega 3 melhora a comunicação entre os neurônios, podendo impactar processos de pensamento e comportamento, além de ajudar na regulação imunológica — assim como a vitamina D3.

Um estudo da Universidade de Viena, na Áustria, evidenciou que uma suplementação de 840 mg/dia de EPA e 700 mg/dia de DHA, por seis semanas, demonstrou benefícios superiores ao grupo placebo na redução da estereotipia (comportamentos repetitivos), fala inadequada e hiperatividade. Na alimentação, é possível encontrar o ômega 3 em peixes de águas profundas, como salmão selvagem, atum e arenque; na sardinha, no azeite de oliva; nozes; chia e linhaça; e também no ovo.

Probióticos

De acordo com o Dr. Nelson Annunciato, “problemas gastrointestinais são extremamente comuns em indivíduos com autismo, passando por constipação até diarreia crônica. E o eixo cérebro-intestino é real — portanto, um trato gastrointestinal saudável é fundamental para o bom funcionamento cerebral”.

Ou seja, para que o funcionamento do intestino seja pleno, é preciso que os micro-organismos existentes nele estejam em equilíbrio, então a microbiota intestinal precisa estar saudável.

Isso significa que bactérias boas, patogênicas e alergênicas que ali habitam convivam em harmonia. Assim, uma suplementação com probióticos (micro-organismos vivos que vão formar colônias saudáveis no intestino) é uma forma de garantir isso. Já uma alimentação desregulada e rica em açúcares, por exemplo, contribui para a desregulação da microbiota.

No caso do autismo, especialistas entendem que a melhora dos sintomas gastrointestinais está diretamente relacionada à melhora da qualidade de vida e prevenção de novas crises nervosas. A suplementação pode ser individualizada, naturalmente, mas também é possível aumentar o consumo de um alimento rico em probióticos, que é o kefir.

O kefir é uma cultura de leveduras e micro-organismos de origem caucasiana que, ao fermentar o açúcar (do leite ou adicionado à água), se prolifera. Dessa forma, formam-se novos grãos e inicia-se um processo infinito. E nunca esqueça: tudo que for fermentado faz bem para o organismo.

“Como consumir o kefir? Eu recomendo que seja consumido de 3/4 a um copo de 200 ml (depois de peneirado) por dia. Lembrando que indivíduos no espectro autista  possuem grande seletividade alimentar. Ou seja, eles não devem ser forçados ou obrigados, de um momento para o outro, a ingerir um determinado alimento. Tente, aos poucos, introduzir alguns dos alimentos aqui mencionados na rotina dessa pessoa, seja ela criança ou um adulto, e observe as mudanças”, finaliza o Dr. Annunciato.

O órgão oculto que controla as suas emoções

Para combater a depressão e a ansiedade, é preciso regular o órgão chamado de "cérebro oculto", o verdadeiro maestro das suas emoções.

Veja aqui como é simples

Referências:

  • Li YJ, Ou JJ, Li YM, Xiang DX. Dietary Supplement for Core Symptoms of Autism Spectrum Disorder: Where Are We Now and Where Should We Go?. Front Psychiatry. 2017;8:155. Published 2017 Aug 23. doi:10.3389/fpsyt.2017.00155
  • Saad K, Abdel-Rahman AA, Elserogy YM, Al-Atram AA, El-Houfey AA, Othman HA, Bjørklund G, Jia F, Urbina MA, Abo-Elela MGM, Ahmad FA, Abd El-Baseer KA, Ahmed AE, Abdel-Salam AM. Randomized controlled trial of vitamin D supplementation in children with autism spectrum disorder. J Child Psychol Psychiatry. 2018 Jan;59(1):20-29. doi: 10.1111/jcpp.12652. Epub 2016 Nov 21. Retraction in: J Child Psychol Psychiatry. 2019 Jun;60(6):711. PMID: 27868194.
  • Amminger GP, Berger GE, Schäfer MR, Klier C, Friedrich MH, Feucht M. Omega-3 fatty acids supplementation in children with autism: a double-blind randomized, placebo-controlled pilot study. Biol Psychiatry. 2007 Feb 15;61(4):551-3. doi: 10.1016/j.biopsych.2006.05.007. Epub 2006 Aug 22. PMID: 16920077.
  • Golnik, A.E., Ireland, M. Complementary Alternative Medicine for Children with Autism: A Physician Survey. J Autism Dev Disord 39, 996–1005 (2009). https://doi.org/10.1007/s10803-009-0714-7
  • Study: First evidence of immune response targeting brain cells in autism
Pedro Bezerra Souza

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1 abril 2021

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